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terça-feira, 8 de julho de 2008

NÚCLEO E O COMANDO CELULAR - ALÉM DO QUE SABEMOS

NOVAS ESTRUTURAS SOBRE O NÚCLEO CELULAR - POR Jerry Borges

Nossos professores comumente afirmam que a composição do núcleo da célula é simples e que ele possui apenas uma matriz aquosa, denominada nucleoplasma, na qual estão imersos os cromossomos e alguns nucléolos, responsáveis pelo armazenamento de moléculas de RNA ribossômico. Contudo, essa definição simplista está longe de descrever toda a dinâmica e complexidade da região nuclear, responsável pelo comando das células. Por que há, então, essa enorme diferença entre o que a ciência sabe sobre o núcleo celular e o que é ensinado em nossas escolas? O núcleo foi a primeira organela a ser descrita. Observações dessa região celular foram feitas em 1682 pelo “pai da microbiologia”, o holandês Antonie van Leeuwenhoek (1632-1723), e posteriormente, em 1802, pelo botânico austríaco Franz Andreas Bauer (1758-1840). Contudo, a descoberta do núcleo celular é freqüentemente atribuída a outro botânico: o escocês Robert Brown (1773-1858), que descreveu essa região celular 29 anos depois (1839), a partir do exame de células de orquídeas. Contudo, nenhum dos três arriscou-se a indicar uma função para essa estrutura recém-descrita. O primeiro a sugerir um papel para o núcleo celular foi o alemão Matthias Schleiden (1804-1881), botânico considerado um dos fundadores da teoria celular, que apresenta as células como a unidade funcional básica dos seres vivos. Um ano antes da descrição de Brown, Schleiden propôs que o núcleo seria o local responsável pela geração de novas células. As afirmações de Schleiden foram duramente criticadas e somente em 1876 as pesquisas do zoólogo alemão Oscar Hertwig (1849-1922) com embriologia de ouriços marinhos, anfíbios e moluscos indicaram que o núcleo celular tinha participação no processo de formação de novas células e, posteriormente, de novos seres vivos. A participação dessa organela nos processos hereditários tornou-se clara apenas algumas décadas depois, no início do século 20. Origem do núcleo
O núcleo celular representado em desenho do botânico alemão Walther Flemming (1843-1905) publicado em 1882, poucos anos depois que se confirmou que essa estrutura estava envolvida na reprodução celular. Ao longo do último século, diversas teorias têm sido propostas para descrever a origem evolutiva do núcleo celular. Essas especulações incluem a possibilidade de que essa organela tenha se estabelecido nas células como resultado de uma relação endossimbiótica análoga à que estaria por trás da origem dos cloroplastos e mitocôndrias, segundo a teoria proposta por Lynn Margulis (1938), professora da Universidade de Massachusetts Amherst (EUA). Essa teoria, conhecida como “modelo sintrófico”, afirma que um antigo representante de um grupo de microrganismos conhecidos como Archaea metanogênicas invadiu ou foi fagocitado por bactérias primitivas aparentadas com as atuais mixobactérias. Por algum motivo desconhecido, esse organismo não foi digerido pelas bactérias e, após algum tempo, a convivência passou a apresentar benefícios para ambas as células que, assim, passaram a viver juntas. A similaridade entre algumas proteínas nucleares presentes nas células eucarióticas e nas Archaea, como as histonas, e a semelhança entre algumas proteínas citoplasmáticas dos eucariótas e das mixobactérias (como as quinases e proteínas G, por exemplo) são citadas pelos defensores dessa teoria como provas dessa relação endossimbiótica. Uma segunda teoria propõe que as células eucarióticas evoluíram a partir de formas primitivas aparentadas com as atuais bactérias planctomicetes, um grupo que possui um citoplasma subdividido por membranas e inclusive uma estrutura nuclear. Outra hipótese, mais controversa, afirma que a região nuclear surgiu após a invasão de células primitivas por vírus (provavelmente poxvírus). Esse modelo se baseia na similaridade entre células eucarióticas e vírus em relação as suas moléculas de DNA, as enzimas conhecidas como DNA polimerases e algumas proteínas. Outro modelo alternativo, mais recente, denominado hipótese da exomembrana, sugere que o núcleo surgiu após a produção de uma nova membrana externa em torno do envoltório celular original. Essa nova cobertura seria a atual membrana plasmática e a membrana celular original se tornou a atual membrana nuclear ou carioteca. O núcleo tradicional O núcleo celular é a maior organela das células eucarióticas, ocupando nos mamíferos, em média, cerca de 10% do volume celular. Apesar de seu tamanho avantajado, ele ainda é envolto em mistério.
Células humanas cultivadas em laboratório com o núcleo destacado por um corante azul (foto: Wikimedia Commons). Os livros didáticos afirmam que o núcleo celular é delimitado pela carioteca, um envoltório formado por uma membrana interna e outra externa contínua com o retículo endoplasmático rugoso. A carioteca também possui uma série de poros nucleares aquosos associados com a permeabilidade seletiva entre o núcleo e citoplasma, que impede, por exemplo, que o material genético “escape” para fora do núcleo. Internamente, o núcleo é composto por uma matriz aquosa, denominada nucleoplasma. Ali estão imersas uma rede de proteínas filamentosas do citoesqueleto celular responsáveis por dar sustentação a carioteca e por manter cromossomos e outros componentes nucleares em regiões específicas. O material genético celular está reunido em um grupo de longas moléculas de DNA denominadas cromossomos que, na maior parte do ciclo celular, estão associadas com proteínas (principalmente histonas), formando um arranjo denominado cromatina. Os nucléolos são outro componente evidente do núcleo e estão relacionados com a síntese e edição de moléculas de RNA ribossômico (RNAr). Componentes menos conhecidos Além das estruturas acima citadas, existe uma série de outros componentes nucleares que você provavelmente não conhece e que não estão na maioria dos livros didáticos. Entre eles, estão as estruturas conhecidas como corpos de Cajal, que são possivelmente locais associados com a maquinaria de transcrição celular através do processamento de diversos tipos de RNA. O núcleo contém ainda os chamados domínios PIKA (sigla em inglês para associações cariossomais polimórficas da interfase). Essas estruturas foram descobertas apenas em 1991 e, apesar de suas funções ainda não serem claras, acredita-se que elas estejam associadas com a produção de fatores relacionados com a transcrição de alguns tipos de RNAs. Outros componentes pouco conhecidos são os corpos PML (“leucemia promielóctica”, na sigla em inglês), dispersos pelo nucleoplasma e relacionados provavelmente com a regulação da transcrição de outras regiões nucleares. Surpreso? Pois a lista ainda não acabou! Os domínios SC35 ou speckles (assim chamados devido ao seu aspecto disperso e amorfo observado nas células de mamiferos) são regiões móveis envolvidas no prcessamento de RNA, na regulação transcricional e na apoptose. Por fim, temos os paraspeckles, descobertos em 2002. Presentes no espaço intercromatínico, essas estruturas dinâmicas se alteram em resposta a mudanças na atividade metabólica celular. Apesar de ainda conhecermos pouco sobre a biologia desses compartimentos nucleares, descobertas recentes indicam que o núcleo celular é muito mais complexo do que se pode pensar após um exame superficial. Embora essa organela não apresente uma distinção morfológica entre as suas regiões, sua especialização territorial fisiológica e sua plasticidade funcional tornam o ambiente nuclear muito dinâmico e capacitam-no para desempenhar um sem-número de tarefas metabólicas necessárias para a preservação da biologia celular. Resta agora esperar para ver isso em nossos livros e em nossas aulas. artigo original:http://cienciahoje.uol.com.br/122998
Jerry Carvalho Borges Universidade do Estado de Minas Gerais 04/07/2008
**GAIA - CONSULTORIA EM BIOLOGIA - NOVOS CURSOS NO SEGUNDO SEMESTRE**
informações: gaiabiologia@globo.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

JOGO DA EVOLUÇÃO - NOVAS DESCOBERTAS


O Jogo da Evolução
Dispositivos do DNA que decidem quando e onde os genes são ativados permitem aos genomas gerar a grande diversidade de formas animais a partir de um conjunto muito semelhante de genes

por Sean B. Carroll, Benjamin Prud’homme e Nicolas Gompel

À primeira vista esta lista de animais poderia ser a de um zoológico qualquer. Há um elefante, um tatu, um gambá, um golfinho, uma preguiça, um porco-espinho, morcegos grandes e pequenos, musaranhos, alguns peixes, um macaco Rhesus, um orangotango, um chimpanzé e um gorila – para citar algumas das criaturas mais conhecidas. Mas esse zoológico não é nada como os outros já existentes. É um zoológico “virtual” que contém apenas as seqüências de DNA desses animais – as centenas de milhões a bilhões de letras do código do DNA que compõem a receita genética de cada espécie.Os visitantes mais animados desse novo zoológico molecular são os biólogos evolucionistas, já que podem contar com um registro extenso e detalhado da evolução. Há muitas décadas, cientistas tentam entender como a grande diversidade de espécies surgiu. Já sabemos há meio século que as mudanças em características físicas, da cor do corpo ao tamanho do cérebro, vêm de mudanças no DNA. No entanto, até recentemente, determinar precisamente quais mudanças nas vastas seqüências de DNA foram responsáveis por conferir a cada animal sua aparência única estava fora de alcance.Agora, os biólogos estão decifrando os registros de DNA para localizar as instruções que fazem as diversas espécies ser tão diferentes umas das outras e nos tornam diferentes dos chimpanzés. Essa empreitada levou a uma grande mudança em nossa perspectiva. Durante grande parte dos últimos 40 anos, os pesquisadores dedicaram a maior parte de sua atenção aos genes – seqüências de nucleotídeos no DNA que codificam as cadeias de aminoácidos, que formam as proteínas. Mas, para nossa surpresa, as diferenças nas aparências acabaram por ser enganosas: animais muito diferentes possuem conjuntos de genes muito semelhantes. As trilhas da evolução estão agora nos levando a dispositivos dentro do DNA que ativam e desativam a expressão gênica, que não codificam nenhuma proteína, mas controlam quando e como os genes são usados. Alterações nesses dispositivos são cruciais para a evolução da anatomia e fornecem novas visões de como a aparentemente interminável variedade de formas do reino animal evoluiu.
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sexta-feira, 4 de julho de 2008

GENES E CÂNCER

Novos fatores genéticos para o câncer
Variações de genes freqüentes na população podem influenciar ocorrência de certos tipos da doença
O desenvolvimento do câncer de mama e da leucemia mielóide aguda pode estar associado a variações de determinados genes que ocorrem com certa freqüência em indivíduos de uma população e são responsáveis por sua variabilidade genética. Dois estudos realizados na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostraram que formas variantes desses genes, conhecidos como polimórficos, são mais freqüentes em pacientes com essas doenças do que em pessoas saudáveis. Segundo a médica Carmen Silvia Passos Lima, que orientou as duas pesquisas, realizadas na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, os genes polimórficos apresentam formas que variam de indivíduo para indivíduo e são herdados dos pais. A forma mais comum do gene é chamada de selvagem, enquanto a mais rara é dita variante. Esses genes determinam características físicas, como a cor dos olhos e dos cabelos. Por outro lado, há genes polimórficos que atuam no metabolismo de substâncias tóxicas, na formação de vasos sangüíneos para a irrigação de células, entre outras funções. As duas formas desses genes – selvagem e variante – agem distintamente nas funções metabólicas das células, podendo ser mais ou menos ativas dependendo do gene. Por isso, a capacidade de atuar no metabolismo de agentes químicos também varia de acordo com o indivíduo, o que faz com que portadores tanto da forma selvagem como das variantes dos genes possam estar expostos a riscos diferentes de câncer.
As imagens de mamografia acima mostram um seio normal, à esquerda, e um atingido pelo câncer, à direita (foto: NIH).
No caso do câncer de mama, o biólogo Gustavo Jacob Lourenço estudou em seu mestrado o papel do gene polimórfico COL18A1, responsável pela formação de vasos sangüíneos, na ocorrência da doença. Enquanto a forma selvagem desse gene (104D) produz uma proteína que inibe a produção de vasos sangüíneos, sua forma variante (104N) não é tão eficiente nessa função. “É importante ressaltar que, quanto mais vasos sangüíneos forem produzidos, mais o tumor será alimentado e, como conseqüência, tenderá a crescer com mais facilidade”, explica Lima. “Por outro lado, quanto menos vasos houver, menor será o risco de esse câncer se desenvolver.” Para a pesquisa, o biólogo avaliou 181 mulheres com câncer de mama e 300 mulheres saudáveis da mesma região. Apenas a forma selvagem do gene foi encontrada em mulheres saudáveis. Já entre as doentes, cerca de 5% possuíam a forma variante. “Esse percentual parece pouco expressivo”, avalia Lima. “Mas ele deve ser visto como um forte indício da relação entre a forma variante do gene e a ocorrência da doença, uma vez que a forma variante não foi encontrada em mulheres saudáveis.” Genes polimórficos e exposição a agentes químicos Na pesquisa sobre leucemia mielóide aguda, a aluna de iniciação científica do curso de medicina Gabriela Góes Yamaguti avaliou os papéis dos genes polimórficos NQO1 e CYP1A, que atuam de forma distinta no metabolismo de agentes químicos, como os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP), para o risco de ocorrência da doença. A aluna e seus colaboradores observaram as freqüências das formas distintas dos genes em 133 pacientes com leucemia mielóide aguda e em 133 indivíduos saudáveis. Lima esclarece que os HAP estão presentes na combustão do tabaco, na gasolina e no querosene, entre outras substâncias, e podem levar ao desenvolvimento de câncer em células da medula óssea. “O gene NQO1 produz uma proteína que inativa os HAP. Já o CYP1A1 é responsável pela síntese de uma proteína que transforma os HAP em substâncias ainda mais tóxicas”, aponta a médica. “No primeiro caso, a forma variante do gene apresenta capacidade menor de inativar esses agentes químicos do que a forma selvagem. Na segunda situação, percebemos que a forma variante torna mais intensa a atividade do gene CYP1A1 e, assim, substâncias de maior toxicidade passam a circular no organismo”, completa.
A imagem acima acusa a presença de leucemia mielóide aguda em células da medula óssea (foto: Wikimedia Commons).
Os pesquisadores encontraram as formas variantes de ambos os genes com mais freqüência nos pacientes com leucemia mielóide aguda do que nos indivíduos saudáveis. Assim, os portadores das formas variantes dos genes apresentaram risco 12 vezes maior de desenvolver a doença do que aqueles com as formas selvagens. Lima espera que as pesquisas chamem a atenção para o fato de que características herdadas podem alterar o risco de determinados tipos de câncer e seu conhecimento pode auxiliar na criação de estratégias de prevenção dessas doenças. “Com o estudo sobre câncer de mama, percebemos a importância de, uma vez identificada a forma variante do gene COL18A1 na mulher, monitorá-la pelo resto de sua vida, para detectar a doença precocemente, caso ocorra”, avalia. “Com o outro trabalho, conseguimos identificar grupos de indivíduos que não devem, em qualquer hipótese, entrar em contato com os HAP, quer do meio ambiente quer no hábito de fumar.” Agora os pesquisadores pretendem coletar amostras de sangue de várias capitais brasileiras, como Porto Alegre, Rio de Janeiro, Goiânia, Brasília, Macapá, Cuiabá, Aracaju, Maceió, João Pessoa e Salvador, para saber se essas características se mantêm em outras regiões do país. “Devemos ter em mente que as freqüências das formas distintas de genes polimórficos variam de acordo com as etnias e, devido à forte miscigenação ocorrida no Brasil, é fundamental aprofundarmos os nossos estudos para verificar se os resultados obtidos em nossa região se aplicam à população brasileira”, aponta Lima.
Andressa Spata Ciência Hoje On-line 17/03/2008
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gaiabiologia@globo.com